terça-feira, 24 de abril de 2012

O mar como testemunha

Valéria Guizo Duarte


O mar pode estar sereno ou revolto. A água que o compõe é sempre a mesma independente do seu estado. O movimento não muda sua essência, nem tão pouco a sua forma. O horizonte continua no mesmo lugar à espera de um aventureiro que deseja conhecer a nascente. As pedras escondidinhas no fundo ou aquelas enormes e aparentes, que emergem em forma de ilhas, compõem a paisagem. O céu azul ou cinzento e os tímidos ou exibidos raios de sol apresentam-se sempre no alto da imagem. Ao cair da tarde, gentilmente, a lua habita o cenário, isso se as nuvens permitirem sua aparição.

Se o mar está sereno o reflexo da luz do sol tonaliza a água com uma cor dourada, que gradativamente se transforma em prateada, ao chegar a luz lunar. A tranquilidade convida para reflexão. O fluxo dos pensamentos acompanha as pequenas ondas que vêm e vão, em um ritmo lento e natural, como se estivessem em uma dança cósmica. Tudo em harmonia. O céu e o oceano parecem fundir-se ao olharmos em direção ao horizonte.

Nem sempre é assim. Faz parte da natureza que o mar se revolte. Parece até brigar conosco. As ondas batem forte nas pedras e na areia da praia. Coitado daquele que esteja em seu caminho! Poderá ser carregado com toda força para um lugar secreto e ninguém mais o encontra. As desavenças que acontecem durante a vida são como esse mar revolto e a mágoa que resta fica tão bem escondida que ninguém desconfia onde está, nem o próprio dono.

Mesmo assim, o mar continua sendo testemunha de desabafos que só ele conhece, de juras de amor, desentendimentos, atitudes afoitas, alegrias, tristezas, nascimento de canções, luaus que varam a madrugada. Ao amanhecer, alguns loucos por um banho mergulham fundo em suas águas para, talvez, encontrar a própria essência. Quando erguem a cabeça e olham os primeiros raios de sol percebem o novo dia que já nasceu, uma nova oportunidade.

Na imensidão do mar podem ser encontradas inúmeras histórias, desde lendas até fatos reais. Todos se concentram em um lugar escondido próximo ao horizonte, onde de lá poderão refletir seus tons em verde e azul, compondo a decoração. A biodiversidade marinha se assemelha aos aventureiros, tímidos, amantes, amigos e loucos, que tendo o mar como testemunha, usam e abusam do seu acolhimento.

Foto Valéria Guizo Duarte

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